World Press Photo 2013

Quando alguém pergunta sobre a faixa de gaza, o que você pensa? Deserto, guerra, brigas, atentados, mulçumanos, morte? Todos esses itens são possíveis respostas. Deixe-me contar o contexto:

Uma das muitas atrocidades cometidas no oriente médio, um bombardeio israelense, matou duas crianças (assim como 51.000 outros palestinos mortos desde 1950). O fotógrafo Paul Hansen teve a felicidade/infelicidade (paradoxo típico de quem faz fotojornalismo) de registrar os corpos sem vida das duas crianças sendo levadas pelos tios, suponho eu, para um funeral, suponho eu de novo (será que a Palestina tem algum cemitério?).

A foto abaixo de qualidade técnica incrível, cujo título é Gaza Burial, ganhou um prêmio de 10 mil euros (26 mil reais) com a 56° colocação no World Press Photo 2013 (simplesmente o maior prêmio de fotojornalismo do mundo) e conferiu mais visibilidade ao trabalho de Hansen. Para qualquer fotojornalista, a reputação é algo muito importante, como um belo castelo construído sobre pedras soltas. Se você retirar uma pedrinha sequer, o castelo todo vem abaixo e levará muito tempo para reconstruí-lo.

Essa foi a foto ganhadora

Essa foi a foto ganhadora

 A polêmica

A eleição da foto como vencedora gerou alguns descontentamentos e desconfianças. Foram movidas denúncias à direção do concurso acusando Hansen de ter photoshopado (editada excessivamente com Photoshop) a imagem a fim de toná-la mais dramática. Vale ressaltar que a pós-edição é permitida pelo World Press Photo desde que observados alguns parâmetros preestabelecidos pela direção do evento.

Inconsistência Apontada pelos Acusadores

Inconsistência Apontada pelos Acusadores

Além disso, Paul Hansen foi acusado de criar uma montagem de três outras imagens para criar a Gaza Burial, fato proibido pela organização e que o desclassificaria. Os acusadores apontam inconsistências das sombras com o horário da foto (dado do exif da fotografia) e diferença na iluminação em alguns pontos.

Os Acusadores

Quem aponta a questão da possível montagem é a equipe do The Hacker Factor e quem acusa o quesito da iluminação é um grupo de especialistas, entre eles Neal Krawertz.

Eduard de Kam afirma ter encontrado outras fotos daquela mesma cena em que a criança do primeiro plano não está tão suja como na foto de Hansen.

O Acusado

É claro que Hansen negou as acusações. “Nunca tive uma foto examinada com tanto cuidado, por quatro especialistas e jurados de todo o mundo”, afirmou. No fotojornalismo, ter uma foto premiada mundialmente sendo taxada como fake (falsa – montagem) pode arruinar a reputação de um fotógrafo e até deixá-lo desempregado dependendo da situação. (ilustração do castelo sobre pedras soltas)

Gaza Burial Original

Gaza Burial por outro fotógrafo

 A Direção do World Press Photo 2013

A polêmica ficou maior porque Hansen não tinha entregado a foto original (em .RAW) até o momento, o que levantou mais suspeitas. Posteriormente o site do evento divulgou a seguinte informação:

“Revisamos o arquivo Raw original e a imagem resultante em formato Jpeg. É evidente que a foto foi retocada no que diz respeito ao tom e à cor de determinadas zonas e em seu conjunto. Além disso, no entanto, não encontramos nenhuma prova de que tenha sido feita uma manipulação relevante da imagem ou uma composição.”

A foto Gaza Burial e seu autor Hansen

A foto Gaza Burial e seu autor Hansen

A fundação diz ter submetido a foto às análises completas concluindo que: “Paul Hansen já havia descrito em detalhes como ele trabalhou a imagem e a World Press Photo não tem motivos para questionar sua explicação”, diz o texto que também rebate as acusações feitas sobre as sombras e iluminação.

Conclusão

Acho super válido você defender seu trabalho quando acusado injustamente por alguma falcatrua, é válido você defender sua reputação e mais justo ainda é você assegurar um prêmio, um reconhecimento do seu talento.

Entretanto alguém notou dois detalhes dessa história toda? Duas crianças morreram, o pai também, a mãe foi gravemente ferida e outros 51 MIL palestinos morreram desde 1950. Se você considerar este contexto, a briga pela veracidade de uma foto parece uma pequena futilidade.

Hansen ganhou 10 mil euros, contudo o que os tios daquelas crianças ganharam? Mais nomes para chorar? Eu sei que meu questionamento foge um pouco da proposta do post, mas eu creio que a fotografia nos faz pensar e essa polêmica em torno de uma foto me fez refletir sobre tantos humanos que morrem no oriente médio enquanto as pessoas do ocidente discutem confortavelmente sobre um prêmio.

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8 Respostas para “World Press Photo 2013

  1. Interessante você trazer esse tipo de discussão aqui.

    A gente se apega a coisas tão pequenas e “insignificantes” (não que ganhar um prêmio desse seja insignificante, mas né) e esquece que há coisas muito maiores e mais importantes lá fora.

    ps: honestamente, aos meus olhos leigos, a foto parece meio fake sim!

    • Olá, Bárbara.

      Que prazer em ter sua contribuição aqui no Blog! Deixe sua preciosa opinião em nossos outros posts.

      Quanto ao tema tratado, é interessante porque se você pesquisar na internet agora, vai encontrar um monte de sites e blogs que replicam essa polêmica fazendo menção apenas à veracidade ou não da referida foto enquanto o fato de uma guerra estar acontecendo todos os dias que não estranhamos mais ver nos noticiários que morreram 20 hoje, houve um ataque que matou 17, um homem bomba explodiu e matou 12…. isso se tornou tão corriqueiro e comum que não estranhamos mais. Então surge uma notícia dessas e nos atentamos mais para ver se a foto parece real ou não ao invés de notar que uma família foi dizimada assim como outras centenas que morrerem diariamente.

      Entretanto, essa foto me fez pensar nisso. Quantos ainda irão morrer enquanto brigamos por 10 mil euros?

      Obs da sua Obs: Eu achei a foto muito bem feita, mesmo com a pós-edição, mas não chega a parecer muito fake. Se você pesquisar por fotos HDR vai achar que são fakes, que são computação gráfica, que são tudo menos fotos… existem fotógrafos que fazem coisas que não acreditamos!

      • Só gostaria de acrescentar uma outra coisa, sei que este é um blog sobre fotografia e gostaria de lhe parabenizar pelos ótimos posts e também pelas polemicas já levantadas, mas até onde um profissional deve ir por seu emprego/profissão? Falo isso pois, não há muito tempo, um fotografo foi questionado por uma fotografia que tirou na hora de um acidente onde um trem atropela uma pessoa, a questão toda foi, se ele teve tempo de tirar uma fotografia teria tempo também para, talvez salvar a vida daquela pessoa. http://colunas.revistaepoca.globo.com/ofiltro/2012/12/04/foto-de-homem-instantes-antes-de-ser-atropelado-por-trem-na-capa-de-jornal-provoca-debate/
        Com isso me coloco completamente CONTRA qualquer premiação para fotos deste tipo que, como você mesmo já citou, só enaltecem o fotógrafo e não o evento que ocorreu.
        Infelizmente damos mais valor nesta vida para nossa reputação do que realmente como que acontece ao nosso redor.
        Independente da acusação de fraude que estão imputando ao fotografo, acho que o cenário todo um grande erro, e não me venham com a história de que as pessoas do concurso não tem nada com esta guerra pois nós todos, de uma certa maneira, temos culpa por nossa omissão.
        Mais uma vez parabéns pelo Blog e espero que continue com o belo trabalho.

      • Olá mais uma vez, Maurício.

        Como eu disse no início do post, a profissão de fotojornalista é um eterno paradoxo e o mais primário é usar uma forma de arte, hobby e amor pelo que faz para ganhar dinheiro, monetizar e lucrar, algo que soa bem frio aos nossos ouvidos.

        Em “defesa” dos meus amigos fotojornalistas devo expor minha opinião sobre a questão levantada. Vamos a ela:

        O que os jornais impressos e teletransmitidos mostram o que em sua maioria? Atrocidades humanas, mortes, atentados, violência e todo tipo de coisa ruim que o homem pode fazer ao próximo (basta assistir Cidade Alerta – se tive estômago para tal). Essas empresas contratam pessoas e as mandam pelo mundo para filmar e fotografar guerras, sequestros e etc e esses profissionais são pagos para isso e sabem o que vão ver lá fora.

        Uma vez li um entrevista de um fotógrafo da National Geographic na qual ele dizia que precisou parar de fotografar um garoto africano quase morrendo de fome naquelas guerras civis, porque se desse mais um clique ele não se consideraria mais humano.

        Um fotógrafo que vai à África ou ao oriente médio, faz uma foto como a deste post e depois tem sua imagem premiada por causa do tema e da qualidade técnica não quer dizer nada. Veja que esse não é o problema em si, pois se não fosse assim teríamos que parar de premiar os escritores, repórteres e documentaristas que fazem a chamada “denúncia social”. É isso que um fotojornalista faz: denuncia, com a lente, os crimes da humanidade. Não sou contra a premiação do fotógrafo, mas acho que poderíamos passar menos tempo questionando sobre a veracidade de uma foto e passar mais tempo buscando meios de desenvolver algumas sociedades e erradicar a fome (puxa… estamos em pleno século XXI no qual a economia mundial bate recorde atrás de recorde).

        De fato, a questão levantada pela revista norte americana é válida: fazer a foto de uma pessoa instantes antes de morrer ou ajudá-la de forma que sua vida seja poupada? No fim das contas, somos todos insensíveis. É normal ver um mendigo na rua e ao invés de sentir pena, sentir nojo; é normal saber que pessoas vivem condições sub humanas nas favelas que morrem todos os dias, é normal ouvir uma chamada no jornal sobre 50 pessoas que morreram hoje no oriente ou que duas crianças foram atingidas por bombas e é normal tirar o smartphone de última geração do bolso e fazer um vídeo de uma pessoa presa na via do metrô e postar na internet… é capaz ainda de programas de TV chamarem o autor do vídeo para uma entrevista e tratá-lo como heroi por ter filmado a “cena rara”. É ridículo e sempre fomos assim… e isso não é coisa da modernidade ou da vida na metrópole.

        Somos maus. Fotojornalistas denunciam essa maldade e, às vezes, são reconhecidos pelo mundo; o mesmo mundo que se preocupa mais com sombras e iluminação do que com vidas. Um eterno paradoxo.

  2. Olá Jô, como você mesmo citou, acredito que os fotojornalista trabalham com o intuito de denunciar ou até mostrar o que acontece ao nosso redor e ninguém se da conta. Entendo o ponto de vista do Mauricio, e eu não serviria para fotografar a “tristeza alheia”, mas pensemos, se de fato o objetivo dessas fotos fossem atingidos, talvez se evitasse mais mortes, uma revolta da sociedade que impulsionasse alguma “atitude” ou ate mesmo (algo quase impossível), uma comoção politica.
    Mas infelizmente todo o sentido da foto foi destruído quando homens (de natureza totalmente depravada), resolvem tirar o foco discutindo se a foto esta ou não modificada. Sera que isso importa mesmo? o que importa é que a foto foi tirada, pessoas morreram, famílias se acabaram e pior… isso continua acontecendo todos os dias.
    É como todos os dias, rimos da nossa situação no metro, pessoas postam fotos, dão risadas, mas e a critica? Quando alguém vai olhar para essas fotos e ver que somos tratados como animais todos os dias? E já não basta um governo que ri da nossa cara, ainda rimos de nós mesmos.

    • Olá, Lah.

      Concordo com você. O mundo precisar ver o que está acontecendo, os massacres e mortes que a guerra traz. E como eles farão isso? Com fotos e vídeos dos fotojornalistas! O reconhecimento de uma foto como esta do post pode gerar um pensamento que mude alguma coisa no mundo.

      Veja bem, essa foto me fez refletir e no fim do post incluí meu questionamento, imagine agora que outras pessoas vejam essa mesma foto (que ganhou repercussão pelo prêmio e pela polêmica) e tomem alguma iniciativa? Essa é a ideia.

  3. Eu acho errado fotografarem o rosto das crianças ali mortas tão tragicamente. Não acho certo! a familia merece respeito, as crianças merecem respeito! Ele imortalizou uma cena que os familiares com certeza não querem relembrar para o resto de suas vidas. Agora ao invés de lembrarem das crianças quando eram vivas vão ficar com essa imagem horrível em suas mentes. Falta de direitos humanos!

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